Os Substitutos A grande diferença…
Abr 03

A vida, que já era uma vadia, agora deu pra ficar terrivelmente melancólica e saudosista.

Tudo isso porque ganhou trilha-sonora: os malditos tocadores de Mp3.

Sim, porque se antes cruzar a cinzenta e populosa avenida Paulista num dia de chuva já era naturalmente melancólico, fazer isso ouvindo “Way to Blue” do Nick Drake é praticamente um convite ao suicídio.

Mas aí você passa pra próxima faixa. Acontece que, se for alguém como eu, malditamente saudosista e “oitentista”, não vai adiantar muito. Melhor correr pro CVV antes que queira se jogar na frente de um ônibus (and if a double-decker bus, crashes into us…to die by your side is such a heavenly way to die…). Not!

O grande escritor brasileiro, Guimarães Rosa, disse que o saudosismo é uma espécie de velhice. Deve ser isso. Tô ficando velha.

Tudo isso só pra dizer que, eu, aqui, recém-parida, a fim de tornar minha nova rotina como mãe menos insegura e angustiante pedi para meu marido e companheiro de gostos musicais para passar toda a discografia do The Cure para meu MP3 player, para que eu me distraísse, entre uma mamada e outra.

Mas qual. Tive foi uma crise dos 31 anos atrasada.

The Cure fez parte de praticamente toda a minha vida. Sim, já que formalmente eles se juntaram em 1976 e justo nesse ano, eu nascia. Passei a ouví-los lá por 88/89, início de minha gótica, turbulenta (porém saudosa) adolescência e segui, acompanhando cada novo lançamento, fielmente, até os dias de hoje.

O que dizer sobre o The Cure que já não foi infinitamente falado? Não vou perder tempo aqui analisando a banda, nem me preocupando e deixar aos fãs uma relato jornalístico com datas, nomes de música, entradas e saídas de integrantes, altos e baixos da vida na estrada e nem fofocas da vida pessoal dos músicos.

Vou deixar aqui minhas sensações, e todo esse enlevo que essa banda me provoca.

As canções do The Cure são praticamente trilha-sonoras para sonhos, já repararam? Apesar do começo de carreira estar ligado diretamente ao punk, coma batidas secas e mensagens diretas, a maioria de suas canções tem como cama, base sempre aqueles teclados carregados de reverbs, muitas cordas em contraponto aos efeitos de percussão metálica: sinos, sinetas, xilofones etc. E as letras, são geralmente fantásticas. Fantásticas no sentido de fantasia mesmo: sonhos, delírios, amores perdidos, paixões fulminantes, mentes perturbadas, angústias d’alma, mundos criados sob encomenda, possíveis e impossíveis. palpáveis e intangíveis.

Ao ouvir Cure, você automaticamente atravessa o espelho e quando se dá conta, está no País das Maravilhas: com todo o seu surrealismo, loucuras e nonsense. Ouvir The Cure é viajar num mundo só seu. Que vai ser diferente do meu, porque suas músicas são verdadeiros testes de Rorschach, refletem a alma de cada um.

Num borrão, num desenho praticamente indecifrável a olhos alheios. Mas que só vai fazer sentido pra você.

Untitled - The Cure (Desintegration)

hopelessly drift
in the eyes of the ghost again

Deslizando desesperadamente nos olhos do fantasma novamente

down on my knees
and my hands in the air again

de joelhos e com as mãos para o ar novamente

pushing my face in the memory of you again
but i never know if it’s real

tentando tirar da cabeça lembranças suas
Mas eu nunca sei se são reais

never know how i wanted to feel
never quite said what i wanted to say to you

Nunca soube como eu queria realmente me sentir
Nunca disse tudo o que gostaria de te dizer

never quite managed the words to explain to you
never quite knew how to make them believable

Nunca me preocupei em achar as palavra certas para te explicar
Nunca soube como fazer com que eles acreditassem em mim

and now the time has gone
another time undone

E agora, o tempo passou
Outro tempo perdido

hopelessly fighting the devil
futility

Esperançosamente lutando contra a futilidade

feeling the monster
climb deeper inside of me

Sentindo o monstro que insiste em escalar minhas entranhas

feeling him gnawing my heart away
hungrily

Sentindo ele devorar meu coração com voracidade

i’ll never lose this pain
never dream of you again

Eu nunca vou perder essa dor
Eu nunca vou sonhar contigo novamente

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16 Responses to “A cura pra essa vida”

  1. morelliNo Gravatar Says:

    Olha só, a mais nova cientista fazendo sua estréia…
    O Cure é a minha banda favorita, e olha que eu nem fui gótico na adolescência, rsrsrs. Mas o gordinho Smith sempre foi meu letrista favorito, ele tem um jeito muito particular pra escrever sobre relações e sentimentos.
    Muito bom Gabi, que venham mais textos!

  2. Fora desse mundo « Says:

    [...] amor discorreu brilhantemente sobre isso em seu novo Laboratório, mas não posso deixar de dizer como é emocionante redescobrir sua própria história através da [...]

  3. maikeNo Gravatar Says:

    Hey!

    Parabéns pela estréia, e pela “recém-parides”.
    Por fim, ficaremos todos mais velhos, e por consequência, nostálgicos.
    Eu tento evitar o excesso de nostalgia com copos cheios e garota vazias (brincadeira…hehe…vi essa frase num seriado).

    Até o próximo texto. =)

  4. MorelliNo Gravatar Says:

    Maike, seu tratante, você é super nostálgico, a diferença é que você é um saudosista dos anos 90, seu guitar!

  5. AndersonNo Gravatar Says:

    “Ao ouvir Cure, você automaticamente atravessa o espelho e quando se dá conta, está no País das Maravilhas: com todo o seu surrealismo, loucuras e nonsense.”
    Engraçado, acontece a mesma coisa comigo quando escuto É o Tchan!

  6. gabrielaNo Gravatar Says:

    Pois é, Anderson, cada um com suas referências, não é mesmo?

    Quem nasceu pra É o Tchan nunca chega a The Cure.

    Abraços. Por trás.

  7. morelliNo Gravatar Says:

    É o Tchan? Nhé, a Companhia do Pagode era bem melhor.

  8. AndersonNo Gravatar Says:

    Ainda faremos uma sessão de cinema esse ano, na casa do Maike talvez. Preparem-se para o clássico “A Cinderela Baiana”. Se o surrealismo da música já é inspirador, imagine transformado em filme… Pra quem não conhece, dá uma conferida no link: http://www.interney.net/blogs/inagaki/2007/08/09/carla_perez_a_cinderela_baiana/

  9. AnaNo Gravatar Says:

    Aica Anderson!

    Sai pensamento que essa mente não te pertence! Saudade d´óceis! Mas Cinderela Baiana nem com tão aprazíveis companhias!

    Acho que você precisa ser exorcizado e esquecer aquela cena dela encima da cabeça do Dáli! Aquilo não existiu! Foi tudo ilusão de óptica!

    Quanto ao Cure, não que esteja negando minha gotiquise, mas me lembra mais a minha infância, quando a minha tia tocava Love Cats pra mim! Sou louca por gatos desde que nasci então foi amor a primeira ouvida! Daí pra passar os sábados(?) vendo aquele programas de clipes da Globo foi um passo = D

    Pena que tive um desvio de caminho nesse meio tempo! E agora luto com todas as forças pra tirar o Creu do caminho do meu bambino sobrinho!

  10. AnaNo Gravatar Says:

    Ei esse blog d´óceis é elitista!

    Só aparece a foto de meia dúzia!

    Eu quero minha fotinha aparecendo também!

    = (

  11. AndersonNo Gravatar Says:

    entra neste link e se cadastra: http://en.gravatar.com/site/signup
    a partir dai a sua fotinho tb aparece nos comentarios neste blog e em mais uma porçao de blogs por ai no mundo…

  12. AndersonNo Gravatar Says:

    O valor surrealista do Tchan ainda vai ser reconhecido, a história vai salvá-los… Certeza que eles vão virar uma banda cult pitoresca dos anos 90, pode apostar…

  13. MorelliNo Gravatar Says:

    Diziam a mesma coisa sobre uma possível volta do Jordy, só que mais de 10 anos se passaram e nem sinal do pirralho francês, provavelmente um adolescente emo nos dias de hoje.

  14. AnaNo Gravatar Says:

    EEEhhhhhh!

    Valeu Flamel!

    Agora eu tenho fotinha!!!!!

    E repitto tira essa bunda da sua cabeça que ela não te pertence!

    Kakakakakaka!

    Eu fiquei pensando porque eles tinham um visual tão anos 80 se já eram dos 90…. E por sua causa não paro de lembrar daquele clipe tosco do cromaqui vagabundo!

    Afê vou ver Catterpillar e Love Cats pra ver se exorciza essa imagem!

  15. SamuelNo Gravatar Says:

    Olá Gabi!

    Desculpe a invasão. Achei-a devido ao texto sobre o Cure. Convido-a a conhecer nossa banda Tributo: http://www.interlude.com.br

    Um Abraço!

    Muito bom seu blog. Está nos favoritos.

    Samuel

  16. RafaNo Gravatar Says:

    Muitooooo Bom.
    ´
    Texto Fabuloso, de forma objetiva traduziu o que a música do The Cure representa para os fãs.

    Parabéns

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