Set 14

HÁ DIAS escrevi no caderno Cotidiano desta Folha um artigo cujo título era “Freiras Feias sem Deus” sobre a nova lei antifumo. Um mar de e-mails.
Volto ao tema hoje para aprofundar duas questões que julgo mais importantes neste debate. Uma delas se refere à imagem de uma freira feia sem Deus como metáfora dos fascistas amantes da nova lei. Por que freira, por que feia, por que sem Deus?
Outra questão, mais “séria”, referia-se ao uso do termo “fascismo” para uma lei legitimamente votada num Estado democrático de direito. Como aplicar um termo advindo do universo totalitário ao campo da vida política democrática?
Eu sei, caro leitor: quem é afinado com o debate da filosofia política contemporânea sabe que a suposição de que a democracia seja imune ao fascismo não passa de mera ignorância.
A democracia atual, com suas intenções de corrigir o comportamento do cidadão (elevando-o à categoria de agente moral), pelo contrário, bebe muito na inspiração fascista.
A referência da “freira” aqui é simbólica, é claro. “Freira” remete à figura da mulher religiosa maníaca pelo controle das paixões e dos desejos, uma espécie de fiscal da virtude e do pecado. Ela ama castigar o pecador enquanto se olha no espelho e vê sua face como sendo a do espírito puríssimo. Não muito distante do não fumante militante que, ainda que não confesse, vê o fumante como um lixo da humanidade, alguém que tem prazer em se melar com a morte.
“Feia” é a figura da deformação interna da alma advinda desta fiscalização orgulhosa. Goza a noite em seu quartinho abafado, com a ideia de que, finalmente, aqueles que ela detesta serão humilhados. Como ratos que se escondem no escuro pra respirar seu ar doente.
“Sem Deus” é uma referência mais sofisticada. A relação entre a luta contra o pecado e o vício, por um lado, e Deus, por outro, implica a noção de piedade. Deus é uma ideia que traz em si um abismo no qual miséria humana e misericórdia divina se encontram.
Uma freira feia sem Deus é terrível porque a única coisa que ela deseja é a violência legal como controle total do pecador, sem amor algum pelo infeliz. Ao pecador resta apenas a miséria e a vergonha.
Já o fascismo é, no fundo, uma religião civil e não um tipo específico de política ou governo. Manifesta-se como um governo cuja autoimagem é a de um agente moral na sociedade. Agente este movido pela fé em gerar melhores cidadãos, por meio do constrangimento legal e científico dos comportamentos.
Na democracia, o fascismo ainda é mais perigoso porque tende a ser invisível. Esta invisibilidade nasce da ilusão de que a legitimidade pelo voto inviabiliza o motor purificador do fascismo. Pelo contrário, a própria ideia de “maioria” ou de “vontade do povo” trai a vocação fascista.
O fator saúde, seja pessoal, seja do planeta, seja da sociedade, sempre foi uma paixão fascista -isto já é largamente conhecido. A própria noção de progresso como saúde social canta hinos fascistas.
Perguntará o leitor: mas se for assim, não tem solução! Sim, tem, basta o governo ser mais cético com seus impulsos de purificação do mundo e se ater a sua condição de “síndico” da sociedade e não de reformador. A ideia de uma sociedade “saudável” já é fascista. O estado moderno tem em seu DNA a vocação ao fascismo.
Outro veneno é a associação com a ciência. Aqui tocamos o fundo do poço. Só idiotas, ou fascistas confessos, mesmo que mentirosos, creem em verdades científicas como parceiros éticos.
A rejeição de comportamentos construída via argumento científico tem a seu favor do ponto de vista do fascista a segurança de que ela é inquestionável. E se a “ciência” tivesse provado que os judeus eram mesmo seres inferiores e eticamente poluidores do mundo, seria correto exterminá-los? Ou pelo menos confiná-los?
Imagine, caro leitor, se em alguns anos “a ciência descobrir” que fumantes e ex-fumantes emitem partículas cancerígenas pela respiração. Claro que esse “a ciência descobrir” pode significar uns quatro ou cinco trabalhos financiados por lobbies contra os fumantes. Como proceder?
Arrisco dizer que nossas freiras feias sem Deus proporiam campos de concentração para os fumantes. Assim garantiríamos um ar sempre puro. A inspiração fascista da modernidade é resultado da secularização do cristianismo e seu desejo de perfeição. Pena que só sobraram as freiras feias e sem Deus.

Luis Felipe Pondé

Nota do blogueiro: esta semana, uma amiga foi chamada de nojenta,no meio da rua, por um completo estranho. Este, ao emitir o vitupério, cuspiu no chão, para conferir requintes permáticos a sua opinião. É preciso tomar cuidado, pois, pelo andar da carruagem, gordos, fumantes, e frequentadores de boteco serão, num futuro próximo, chicoteados em praça pública.

Set 02

“Do you or do you not know about the bird?
Cause everybodies heard that the bird is the word!

Family Guy e The Trashmen - A obsessão de Peter Griffin
The Drums - Let’s go surfing
The Smiths - This charming man
Yo La Tengo - Madeline
Peter Bjorn And John - Up against the wall
Langley Schools Music Project - Good vibrations

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Publicado em 04/06/2009 |
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Ago 11

Jun 12

Save some face, you know you’ve only got one
Change your ways while you’re young
Boy, one day you’ll be a man
Oh girl, he’ll help you understand

Smile like you mean it
Smile like you mean it

Looking back at sunsets on the Eastside
We lost track of the time
Dreams aren’t what they used to be
Somethings set by so carelessly

Smile like you mean it
Smile like you mean it

And someone is calling my name
From the back of the restaurant
And someone is playing a game
In the house that I grew up in
And someone will drive her around
Down the same streets that I did
On the same streets that I did

Smile like you mean it
Smile like you mean it
Smile like you mean it
Smile like you mean it

Oh no, oh no no no
Oh no, oh no no no

Jun 04

*

“O retorno de Dr. Phibes
Músicas para minha amada Victoria…

Trailer original do filme “The Abominable Dr.Phibes”
Goldfrapp - Lovely Head
Bibio - Oval Emerald Vertigo
Mirrormask - Close to You
Combustible Edison - Carnival of Souls
Judy Garland - Somewhere Over the Rainbow (Theremin Version)

*Ilustração de Vincent Price

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Publicado em 04/06/2009 |
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Jun 02

Durante a E3, a maior convenção de games do mundo, foi divulgado o trailer oficial de The Beatles: Rock Band, novo game da franquia Rock Band, um simulador de banda em que você pode jogar como baterista, guitarrista, baixista ou vocalista. Totalmente inspirado na carreira do grupo mais popular que Jesus Cristo, o game mostra desde o começo da banda no modesto Cavern Club em Liverpool, até a fase psicodélica. Nem quero saber se o jogo é legal ou não, mas essa introdução é de levar as lágrimas qualquer fã de Beatles.


 

The Beatles: Rock Band tem previsão de lançamento para 9 de setembro. Segue a lista divulgada até agora de músicas no jogo.

I Saw Her Standing There
I Want to Hold Your Hand
I Feel Fine
Day Tripper
Taxman
I Am The Walrus
Back In The U.S.S.R.
Octopus’s Garden
Here Comes The Sun
Get Back

Mai 29

É, eu sei. Faz tempo que não publico nada aqui no blog. Porém, tenho uma boa desculpa: estava escrevendo a qualificação de minha tese, o que simplesmente ocupou 80% do meu tempo nos últimos dois meses. Assim, antes de entrar nos tópicos que quero discutir, aponto: mestrado deixa louco, não entrem nessa.

***

E, nesses dois meses ausente, algo de muito relevante ocorreu: o Glorioso, o Todo Poderoso, o Coringão voltou, em grande estilo, conquistando o Campeonato Paulista de forma invicta. Possuidor de uma equipe sem dúvida alguma equilibrada e forte, o Timão, graças também ao fenômeno Ronaldo, simplesmente passeou nas finais do torneio. Uma nação orgulhosa, um time que volta do inferno para a reabilitação, uma diretoria altiva, e, a cereja do bolo, o craque que se recupera mais uma vez; que, como o time, como os brasileiros, não desiste e sacode a poeira. Irresistível aqui não aplicar a relação parte/todo. Enredo fácil, e delicioso, para o paladar da acrítica e sedenta mídia esportiva. Sedenta por mitos fáceis, pelos quais as pessoas inteligentes não devem se deixar levar.

***

Sou corinthiano, e, com frequência, chamam-me “corneteiro”. Engraçado: no Brasil, reclamar é sempre ofício dos mal-amados, dos desditosos. Não vejo assim; se com a sociedade é preciso ser crítico, por que não o ser com minha paixão?

***

Vamos ao que penso estar sendo mascarado pela boa fase do time:

– Acreditem: possivelmente, se fosse dirigente, vetaria a contratação do Ronaldo. Não por não acreditar na sua recuperação, mas, sim, pelo simples fato de que o que se gasta com ele é muito mais do que o que se arrecada. Em qualquer país rico, o Ronaldo daria lucro, no Brasil, não. Nossas empresas não investem como as do exterior, nosso público não gasta (e nem poderia) como o do exterior.
– Assim como fez Dualib, Sanchez onera o clube ao máximo, para ganhar títulos, enquanto faz o que em entender administrativamente.
– A dívida do clube cresceu; só um doido acha que seria possível pagá-la sem vender jogadores, algo que o Corinthians não fez desde que o Sanchez entrou.
– O alardeado patrocínio do Corinthians, de 30 milhões, não passa de pouco mais da metade do divulgado. A Batavo paga 16 mi, e ainda recebe, pasmem, um dos patrocínios de manga.
– O patrocínio da Nike só entra ano que vem, e dos 18 mi acertados, 10 já foram adiantados.
– O Corinthians deve até as calças para a FPF e CBF; por isso nossos dirigentes não reclamam tanto quanto os de outros times quando ocorrem erros de arbitragem ou de má administração das entidades.
– Empresários fazem o que querem no Timão. Como explicar as contratações recentes de Marcinho (rebaixado no Paulista) e Henrique (bi-rebaixado no Guarani)?
– Não estamos conseguindo segurar a base do time; a cada semana, surgem novos rumores de jogadores que podem sair, inclusive para clubes brasileiros.
– Com o Sanchez, a toada será semelhante ao que ocorria com o Dualibabá: uma fase boa, outra péssima, rondando o rebaixamento. Não se tem o costume, no Coringão, de planejar e construir uma base, mas sim de onerar o clube com o que ele não pode arcar, como contratações milionárias.

***

“És do Brasil o time mais brasileiro”.
Não quero aqui dar lição de moral, muito menos posar de certinho. Gostaria, apenas, de apontar o quão profético pode parecer um simples verso. Aproveitando mais uma vez a relação parte/todo, o Corinthians não precisa ser a reprodução dos vícios infelizmente recorrentes na terra de Pindorama.

Abr 24

Nada melhor pra embalar o início da nostagia sobre a década zero do que essa música do CAXABAXA, projeto de 2006 de duas figuraças da cena paulistana, o hoje em dia internacional Adriano Cintra, que entre um monte de bandas é o cabeça do Cansei de ser Sexy e Carlos Dias, que também é envolvido em um monte de coisa, mas é mais conhecido como o vocalista do Polara.
Sem mais, porque eu também me lembro de quando a gente era tudo amigo.
E você, lembra?

CAXABAXA
Lembra quando a gente era tudo amigo?

Lembra quando a gente se encontrava
a tarde em casa ou a noite na balada?
Quase nada nos preocupava
era só se olhar, curtir e sonhar.
Agora você vem e me diz:
Nossa! Como você anda sumido!
Lembra quando a gente era tudo amigo?
Quase tudo era permitido.

Lembra quando a gente era tudo amigo?

Tudo amigo! Lembra?
Tudo amigo! Lembra?

De rolê no Charm, extender pro BH
O Pix virou Treze, eu não sei mais quem vai lá
Tá tudo estranho, tão esquisito
Se lembra quando a gente era tudo amigo?
Já bebi na Real, já devi pro seu Zé
Lembra do Aeroanta, aquela pinga com mel
eu sempre te pagava, você nunca agradeceu
já devia saber, você não era amigo meu.

Lembra quando a gente era tudo amigo?

Lembra quando a gente era tudo amigo?
Lembra? Tudo amigo.

Abr 17

*

“Jazz is dead…
…and maybe music is dead, too.

Jazz is dead vs Alabama - Discurso de Dino Dini sobre música de John Coltrane
Yo La Tengo - Last days of disco
Elbow - Don’t mix your drinks
Radiohead - Nude
The Cinematic Orchestra - All that you give
Red Snapper - Image of you

* Foto de Gjon Mili

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Publicado em 18/04/2009 |
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Abr 16

Nunca na história desse país…

Lula

…um presidente fez uma participação especial em uma animação gringa [chupa FHC].
Completando 13 temporadas no ar, um dos mais recentes episódios de South Park, chamado Pinewood Derby, mostra nosso simpático presidente mentindo na maior cara de pau junto dos principais líderes mundiais, como o presidente Nicolas Sarkozy (França), a chanceler Angela Merkel (Alemanha), os primeiro-ministros Gordon Brown (Inglaterra) e Silvio Berlusconi (Itália), entre outros grandões. O motivo do golpe é esconder de uma patrulha de alienígenas que um tesouro espacial caiu na Terra, para depois dividir a fortuna entre os países que participaram da farsa. Detalhe, de todos os envolvidos, só o presidente da Finlândia não concorda com a mentira. Resultado, toda a Finlândia é destruída em um ataque nuclear.

Não é a participação mais íntegra do mundo, mas valeu a lembrança. Espero por uma participação do barbudo nos Simpsons, tomando uma gelada com o Homer e o Barney no Bar do Moe.

Nota: os criadores do South Park continuam mandando muito bem, mas o Chef faz muita falta…